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O real da Vida

O espelho não fala mais comigo
Aliás, nem era meu
Meu amigo imaginário,
Deixei de imaginar, ele morreu.

O monstro que me espreitava no armário
Não passa de um "closet" bagunçado na escuridão
Do príncipe encantado, só me restou o cavalo branco
E a fada do dente não paga minha obturação.

Engulo, todo dia, o sapo que era pra eu beijar,
Minha mãe não me faz mais aquele bolo de abacaxi,           
Meu primeiro amor, vi no vento se esfumaçar
O cavaleiro apaixonado nunca veio, da torre, me resgatar!

Não quero mais espetar o dedo e dormir cem anos,
Quero acordar mais fera do que bela
Porque o espelho é um farsante, 
O amigo imaginário, um tolo que falava abobrinhas   
E o monstro do armário, se ousar aparecer, há de ganhar muita pancada minha!

Porque hoje, o cavalo branco já conhece o chicote
E não abusa da sorte,
O sapo que engulo, só desce goela abaixo depois de bem mastigado, macerado, torturado
O primeiro amor? Inda bem que se foi feito fumaça,
Quero um homem e não uma carcaça.

Fiz do meu jeito e sou feliz,
Desmistifiquei a vida e estou aqui.
Cuspi na cara do inimigo,
E estou sempre de olho no amigo!

Hoje o olhar é mais duro 
E a boca cerrada
Descobri, cresci, fortaleci:
Não há contos de fadas!

Só ficou mesmo e para sempre
Aquele bolo de abacaxi
Cujo gosto inda tenho na boca
E a presença, real e concreta
da mãe,
Que não está mais aqui...
(Andreia Jacomelli)




Meu Raio de Luz


Eu sabia da solidão
Sabia detalhes de um fundo de poço
Eu conhecia a escuridão
E nela achei consolo, sem esforço...

Eu sabia das muralhas que aprisionam a alma - eu mesma construi as minhas-
Eu sabia como preservar a calma
Junto com as sobras da humanidade
Estava protegida sozinha...

Criei uma zona de conforto
Quando a razão fechou a porta do coração - não mais entraria desamor-
Vestida de frio, tinha apenas uma muda de felicidade morta
Para que o mundo não percebesse da alma, a frieza e a dor

Oh! Desatenta razão! Não cumpriu sua missão
Uma frestinha diminuta ficou aberta na porta do coração
Então, fez-se a luz na caverna da minha alma
Ceguei. Neguei. Perdi a calma!

Era tarde. Estava fora da minha zona de conforto...
Cadê minha escuridão? Onde está minha solidão?
A treva sucumbiu à luz
E lá estava você a me estender a mão

Raio de luz clareando meu espírito
Sol que pagou o preço do meu resgate com amor
Só então percebi:
Era refém de minha própria dor!

Aceitei então, tua mão, teu amor, tua luz...
Escuridão agora?
Só na iluminada negritude dos olhos teus... tão meus...

Aceitei enfim viver
Viver até morrer
E morrer de tanto viver...

Uma Coisa Chamada Amor


Como pode ser tão revigorante quanto mortal?
O que deveria ser exclamação de vida,
Por muitas vezes, da vida, é o ponto final.
Hora o braço que levanta, hora a mão que empurra
Uma vez, o sorriso cheio de alegria
D'outra, o olhar transbordante de ira...
Aquela mão que aquece e afaga...
O mesmo punho cerrado que mata.
Hora sim, hora não
Eterna bifurcação...
Certa vez, promessa de algo eterno
Não demora se foi, frágil e claudicante
Inaugurando na alma, verdadeiro inferno.
Pode ser a palavra que protege e aninha
Pode ser o verbo que, da alma, quebra a espinha...
Aquele azul ensolarado que alumia o dia
O cinza desbotado que, não raro, deixa a vida em cinzas...
Sobre as cinzas da vida me encolho: hoje voltei ao pó...
Sou apenas dor...
Nos cacos da minha vida, 'inda busco um pedaço daquele espelho
Daquele mesmo, que um dia, me refletiu o amor...

Perdoa-me

Por você suspirei debruçada na janela de minh'alma
P'ra ter você, fugi do corredor da morte, 
Abdiquei da própria sorte
Abjurei. Reneguei minha calma
Rasguei os valores que, por longos anos foram-me cautelosamente costurados...
Costurei os retalhos dos nossos corações... Corações por longos tempos mal tratados...
E, enquanto meus lábios pronunciavam teu nome,
Meu olhar, o teu procurava na vã tentativa de entender...
Eu nunca perguntei. Como pude me esquecer?
Você jamais pediu que eu fugisse do corredor da morte, que abdicasse de minha sorte,
Que abjurasse, que rasgasse meus valores, que remendasse o meu e sequer o teu coração!
Se teu inferno é teu modelo de paraíso, que tenho eu com isso?
Agora, vou-me encolhendo, ensimesmando-me na esperança de amadurecer e ser, enfim!
Ser apenas uma pessoa que propõe e não mais se impõe.
Perdoa-me...


À minha doce amiga "M", que não errou... apenas amou...

Complementariedade dos Opostos

Entre o céu e o inferno
Entre a luz do sol e o brilho da lua
Entre a quentura do verão e a frieza do inverno
No vazio repleto de inesperado, minh'alma flutua...


Entre a luz e a sombra
A cobra e a pomba
Entre a letra e a melodia
Estou naquela emoção minaz que à tua sanidade desafia...


Entre o ódio e o carinho
A visão e a cegueira
Descubro que o oposto da vida não é a morte:
O oposto da vida é a pasmaceira...


Hemisfério esquerdo do cérebro que diz não;
Hemisfério direito que opta pelo sim - perfeita confusão!
Estou no círculo claro presente no Yin
E no Yang, estou naquele ponto de escuridão...


Os opostos me atraem.









Procura-se

Procura-se um par para a vida partilhar;
Procura-se um desejo para inspirar o ato de poetar...
Procura-se um par: sedento, esfomeado, ávido por ser amado e amar.
Procura-se mais que um amante: este tipo é fácil de achar.
Procura-se um cúmplice para juntos, a felicidade tramar...
Se alguma fêmea por acaso o encontrar, agarre-o sozinha
Ou... se for tola, indique esta escrivaninha!...



Acta e Passio

Em algum lugar no tempo, dois irmão viveram para fazer o bem.
Acta e Passio abriram mão do dinheiro, do conforto e das "nobres" companhias. Escolheram aqueles sofridos, chamados de "ninguém"...
Tamanha nobreza de alma incomodou ao orgulhoso, ao poderoso e ao egoísta que, por várias vezes, tentaram tirar-lhes a vida...
Mas vieram os anjos acudir-lhes e isso despertou mais inveja ainda!
Por fim, os irmãos foram decaptados: por paraticar o bem, foram cruelmente castigados...
Que tolice! Os irmãos ainda vivem e socorrem a todos em momento de precisão!
Só que hoje, atendem pelos doces nomes de Cosme e Damião!

Leia não, flôzinha, leia não...



Adelaide Catarina…ô diacho de menina!
Véve com o livro na mão, e eu, que sô pai arretado, vivo lhe aconselhando: leia não, flôzinha, leia não!…
É que leitura demais só serve pa trazê ilusão.
Olhe só: num temo água, coberta e nem pão… e Adelaide Catarina qué vivê com o tar do livro na mão!
Cismô de andá todo dia, duas hora no lombo do burro, três hora na chalana e mais meia hora de pé. Sabe pa quê, seu moço? Pa í pa tar da escola, invés de plantar o café!
A peste da professora diz que Adelaide Catarina tem muita idéia boa no pensamento.
Pois eu digo que ela , pros irmão, só serve pa mau exemplo! Já pensô, seu moço, se os outros doze arresolve segui Adelaide Catarina pa escola?
Vixe! Nossa Senhora! O patrão me esfola!
Mas fazê o quê, se ela qué vivê de ilusão? Diz que vai sê letrada, que vai escrevê livro pa todo mundo tê na mão!
Ah! Meu Padim Padi Ciço… Pede o sinhô, ai de cima pa Adelaide Catarina: Leia não, flôzinha, leia não…

Nota da autora: Que algum dia, a Educação do nosso país, possa ser verdadeira fonte de esperança e mudança de realidades injustas e não mantenedora delas.